O que ser eis a questão.
“Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
No outro canto da cidade, como eles disseram...”
(Legião urbana)
Uma linda história! Mais linda ainda pois acontece todo dia, não é um conto de fadas, não é algo extraordinário, mas é o dia a dia, algo que acontece comigo, com você, e com todos. Contêm em si a mais pura verdade, duas vidas maravilhosamente resumidas pelo Legião. E quem não se identifica com ela? Quem já não se colocou no papel do Eduardo ou da Mônica? Mas agora me diga o Eduardo e a Mônica que começaram a canção são os mesmo ao final dela? Eles possuem a mesma vida, as mesmas idéias? Ou mudaram? Pausa para reflexão, (garçom uma cerveja! Só tem chope...).
Acho que ninguém irá dizer que sempre somos os mesmos. Todos sabemos que mudamos durante nossas vidas, a morte de uma pessoa querida, casamentos, estudos, mudanças de casa. Tudo isto nos afeta e nos molda. Não, com certeza não, o Eduardo e a Mônica do fim da canção não são os mesmos do inicio da canção. Pode ser que o Eduardo ainda continue jogando futebol de botão e a Monica ainda tenha tinta no cabelo. Mas são outros. Ou como dizia um tal de Heráclito de Éfeso:
“Um homem nunca entra no mesmo rio duas vezes, pois quando ele entrar pela segunda vez a aguas do rio já não serão as mesmas, nem será o mesmo homem.”
Tudo muda. A única coisa coisa que permanece constante é a mudança. Todos sabemos disto, mas de vez em quando temos que pensar nisto de novo para não esquecer. Certo, certo, sei que eu já disse isto, mas porque fico repetindo isto? Que cara chato sou eu! Bom, se tudo muda, de um modo ou de outro, “COMO” muda? Para onde vai nos levar a mudança? O que fazer? ou:
“Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim?”
( Hamlet – Shakespeare)
Bonitas palavras de nosso amigo! Mas já um pouco fora de uso, (as coisas mudaram!) então vamos brincar um pouco com elas para entende-las. O que o caboclo ai em cima quer dizer é: Devemos lutar contra o destino, contra as mudanças, ou deixar que o destino nos leve. A “Fortuna enfurecida” não é o dinheiro enfurecido não!, Não quer dizer que o Silvio Santos vai embulhar uma nota de 100 em uma pedra e te acertar a cabeça perguntando: “Quem quer dinheiro!”. Fortuna no caso quer dizer, “sorte”,”acaso”, coisas que não dependem de nós. Então me diga você. A gente deve lutar contra a vida ou fazer como um de nossos grandes poetas da vida disse: “Deixa a vida me levar, vida leva eu!” Zeca Pagodinho, o genial!
Bom, quem me conhece já sabe o que vou falar: “mais ou menos...”. Vamos voltar a idéia do rio do “seu Heráclito”. Eu diria que a vida não só é parecida com um rio no sentido em que ela está a todo instante em movimento, mas também é parecida com um rio no sentido em que ela tem sua própria dinâmica. Ela possui sua própria lógica, e como um rio tenta seguir seu caminho até o mar. Que mar é este em que a vida parece tentar desembocar? Isto eu não vou discutir agora, vamos deixar para depois, vamos pensar um pouco nas águas da vida. É preciso primeiro conhecer a água em si, para depois tentar compreender os rios, lagos, cachoeiras e mares. A água, assim como a vida, parece não gostar muito de tentativas para controlá-la. Não adianta tentar segura-la com a mão fechada e firme tentando forçá-la que a água da vida irá se esvair por entre seus dedos. No entanto quando nos aproximamos com a mão aberta e amiga, ela se deposita calmamente em nossa palma e ai sim podemos conduzi-la. Quantas vezes em nossa vida não tentamos segurar algo com as mãos firmes e não conseguimos? Não seria melhor expor francamente nossa compreensão com a vida e deixar que ela se acomode suavemente em nós? Assim como a água, a vida se acumula, é fácil de controlar pequenos gestos, é fácil verter um copo de água, mas um galão de
Infelizmente a mentalidade de nossa época tem apresentado a vida como uma piscina de águas mansas, onde o que se importar é nadar rápido e em menor tempo. Apresentam a vida como um local onde o homem é o rei, onde tudo é controlado, a temperatura da água, a profundidade, etc, e só depende de você, ou melhor é sua obrigação ser o melhor. Mas piscina é algo artificial, piscinas não se fazem a si mesmas, a vida sim, as águas na natureza, mesmo que sejam em um lago, são bem diferentes de uma piscina e nadar mais rápido muitas vezes significa morrer mais rápido. Nem tudo está sobre nosso controle. O lodo se acumula no fundo e quando cansamos não podemos ficar em pé e descansar. Quem aprendeu a nadar nos rios sabe muito bem que não se nada em linha reta! Não se olha para um ponto na outra margem e vai-se ao encontro dele. Por outro lado, observa-se a correnteza, observa-se a si mesmo, se está cansado, se sente bem. Tenta conhecer o fundo, ver se existe uma ilhota para descansar, pergunta a quem já nadou por ali, e se resolvemos encarar o desafio nadamos, não contra a correnteza, mas a utilizamos a nosso favor, nadando em diagonal e deixando que ela nos leve onde queremos.
“Deixando que ela nos leve onde queremos”. Muitas vezes me pego falando cada besteira! Por que? Porque justamente isto que eu queria falar discutir aqui: onde é que nos queremos chegar? Será que é termos dinheiro e uma vida próspera sacrificando tudo o mais, família, ideais, paz, por isto? Será que é sermos politicamente corretos, sermos tolerantes com o próximo ao mesmo tempo em que não o somos conosco mesmo? É ter fama? É o que? Portanto, a questão, pelo menos para mim, não é “ser ou não ser” é “o que ser”. E cada um deve procurar a sua resposta. Cada um sabe onde o sapato aperta. E devemos nadar não contra, mas seguindo a correnteza da vida tentando alcançar este ponto. Mas se a mesma correnteza não nos permitir chegar lá, não é tão ruim assim, nós nadamos, e pode ser que não tenhamos chegado onde esperávamos mas em um lugar melhor.
Atenciosamente - Edson
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